Atualizar Kardec?

Rogério Coelho

Certa vez, Francisco Cândido Xavier falou que a única coisa que, realmente, o deixava triste era quando alguém dizia que não acreditava em Deus. (No que estamos plenamente de acordo).

Existe outra questão que me deixa não só triste, mas profundamente indignado: é quando alguém que se diz espírita afirma que Kardec precisa ser atualizado. Tal atitude denota extrema ingratidão…

Existem inúmeros verbos que podem ser colocados antes do nome de Kardec: ler Kardec; conhecer Kardec; estudar Kardec; refletir Kardec; entender Kardec; divulgar Kardec; amar Kardec; abençoar Kardec; admirar Kardec; louvar Kardec; elogiar Kardec; meditar Kardec; bendizer Kardec; aprender com Kardec; fazer como Kardec, pensar como Kardec; agradecer a Kardec, mas atualizar Kardec?! Jamais!

Temos que ser um com Kardec assim como Jesus é um com o Pai Celestial.

Vez por outra, temos surpreendido companheiros invigilantes, repetindo informações de estudiosos que afirmam que Kardec está ultrapassado, por terem seus pensamentos e orientações completado um século e meio de existência, e de lá para cá tudo se modernizou, e que a era pós-Kardec trouxe novos conceitos, novas revelações, veiculadas por Espíritos e médiuns confiáveis.

Na verdade, o Espírito humano, indócil por natureza e ávido por novidades, está sempre engendrando e articulando. Mas, em matéria de Espiritismo, tudo está contido nas Obras Básicas de Allan Kardec e tal deve ser o eixo de toda e qualquer elucubração espiritista. Portanto, qualquer novidade que surja, fora do contexto doutrinário, não tem o aval da Codificação.

Kardec nunca esteve e não está ultrapassado. Está, sim, atropelado pela insolência e leviandade de pseudoespíritas que, no dizer de Herculano Pires, são presunçosos demais e estudiosos de menos. Esses, geralmente, endossam suas teses absurdas com a afirmativa do próprio mestre lionês que disse: Se a Ciência provar que o Espiritismo está em erro em algum ponto, ele se modificará nesse ponto.

Acontece que, até hoje, a Ciência não tem feito outra coisa senão confirmar os postulados espíritas, ratificando, portanto as informações contidas na Codificação.  Vejamos um exemplo disso: dois pesquisadores norte-americanos, Kevin Zahnle e David Grispoon afirmaram que partículas de pó biológico carreadas pelos cometas, suficientemente pequenas para atravessar a atmosfera terrestre sem se aquecerem, explicariam a presença de aminoácidos encontrados em camadas geológicas muito antigas na Dinamarca.

Segundo análise da NASA, Agência Espacial Americana, a poeira dos cometas é rica em carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, substâncias que formam as moléculas dos seres vivos. Recentes descobertas reforçam a teoria de que a vida terrestre surgiu a partir de moléculas trazidas pelos cometas, confirmando antigas proposições de que semelhantes astros teriam atravessado o Sistema Solar deixando um rastro de poeira carregado de moléculas orgânicas. Essas substâncias teriam sido atraídas para a atmosfera do nosso planeta e tomado parte em reações químicas que propiciaram o surgimento dos primeiros seres vivos. Não fica muito difícil entender essa espécie de polinização cósmica se a compararmos com a de nossos vegetais.

No livro A Gênese – os milagres e as predições segundo o Espiritismo, capítulo IX, Allan Kardec esclarecia (em 1868), que estava perfeitamente tranquilo com relação à influência que os cometas exercem, pois são destinados a reabastecer os mundos, trazendo-lhes os princípios vitais que armazenaram em sua corrida pelo espaço e aproximação dos sóis.

Como se vê, fazendo uma prova cruzada entre as modernas descobertas da Ciência e os postulados Kardequianos, concluímos que o mestre lionês está tão atual hoje como esteve desde os meados do século XIX.  Por outro lado Jesus afirmou [1]E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre.

Ora, como poderia ficar démodé (ultrapassado, fora de moda) algo que, segundo afirmação do Mestre Maior, estará para sempre conosco?! A verdade é uma só em todos os tempos, e não falece dúvida de que o Consolador prometido por Jesus é o Espiritismo. Então, como poderia estar ultrapassado?

O trabalho de construção da Codificação foi exaustivo, detalhado, minucioso, demorado, suado, confirmado e reconfirmado. Custou ao Codificador anos seguidos de noites insones esmiuçando, revendo, refazendo, conferindo… E agora vem alguém dizendo que isso e aquilo precisa ser revisto?

Deolindo Amorim dizia que Herculano Pires jamais aceitou a ideia de que a Codificação Espírita estivesse superada. Nossa afinidade, nesta posição, era completa, afirmava.

Aí está o pensamento coerente e definitivo de dois imbatíveis luminares das letras espíritas. Quem há de discordar?

Não sem motivos, o nobre Espírito Vianna de Carvalho – enternecido – tece loas e justos agradecimentos a Kardec através da mediunidade de Divaldo Pereira Franco [2]: (…) recordando o ínclito Codificador Allan Kardec, que abriu a cortina da Nova Era com o seu caráter invulgar de homem de bem, de erudição e de dignidade, nós, os Espíritos-espíritas agradecemos a sua contribuição e valor, por haver sido o excelente instrumento do Mundo espiritual para a Humanidade no momento mais grave do pensamento histórico de todos os tempos.

Para esclarecimentos mais detalhados e sedimentações doutrinárias recomendamos a leitura do livro, publicado em parceria com Orson Peter Carrara: Ontem e hoje com Kardec, sempre atual, ed. Mythos Book, no qual poderemos nos deleitar com a impressionante clareza e sábias argumentações do notável mestre de Lyon.

 

Referências:

[1] BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 14, vers. 16.

[2] FRANCO, Divaldo Pereira. Espiritismo e vida. Pelo Espírito Vianna de Carvalho. Salvador: LEAL, 2009. cap. 2.

 

Fonte: http://www.mundoespirita.com.br (Junho / 2018)